Discurso de Henrique Gouveia e Melo

Lançamento de Campanha à Presidência da República


Antes de tudo, o que vos queria dizer é que eu não me vou dirigir a ninguém em especial. Porque somos todos portugueses e é aos portugueses que me quero dirigir, porque são eles que são a minha comissão de honra. Aos portugueses.

Em março de 2024, escrevi um artigo que dizia que se aproximavam tempos perigosos. Os tempos perigosos já chegaram. Na altura foi muito criticado. No início deste ano, quando me candidatei, disse que um dos motivos porque me candidatava eram as relações internacionais, que estavam numa fase de mudança perigosa para Portugal, para além do desgaste da nossa própria democracia – que apresentava sinais de desgaste e da necessidade de uma mudança forte.

Hoje aqui estou eu a iniciar este processo, com toda a coerência de há quase dois anos ter identificado isto, quando muitos não pensavam sequer no problema.

A Presidência da República é acima de tudo um cargo unipessoal, em que o perfil de um Presidente importa.

Em tempos de incerteza, eu trago-vos confiança; em tempos de estagnação, eu trago verdadeira vontade de mudança; em tempos de ruído, trago serenidade; em tempos de divisão, trago união. E mais: em tempos de interesses particulares, de interesses privados, eu trago o interesse comum, o interesse de Portugal e de todos os portugueses.

E por fim, em momentos em que a opacidade toma conta de muitos discursos, eu trago clareza, eu trago transparência. Nunca me escondi, nunca me hei de esconder e assumirei sempre todas as minhas responsabilidades.

Chegaram a dizer que era um perigo para a democracia. Um perigo para a democracia são as opacidades e as relações que existem muitas vezes escondidas dentro dessa democracia, que corroem a democracia, corroem a confiança na democracia.

Eu não trago nada disso. Servi 45 anos um Portugal que na minha cabeça era um Portugal unido: sem direita, sem esquerda, sem cor, sem credo. Era um território, uma comunidade, uma identidade, uma língua, uma bandeira e o nosso hino nacional.

Ser Presidente é uma grande responsabilidade. Portugal já tem desunião que chegue no sistema partidário, faz parte do sistema. Não sou contra os partidos. Eu sou um democrata, sempre fui um democrata. O meu pai era um democrata, toda a gente da minha família era democrata. Na minha família mais próxima ensinaram-me a respeitar os valores da democracia. Por isso, eu não sou um perigo para a democracia, pelo contrário, eu quero ajudar esta democracia. E é precisamente porque quero ajudar esta democracia que me apresentei também aqui ao serviço dos portugueses outra vez.

Eu estou aqui porque vejo esta função como mais um serviço que eu tenho que fazer à minha pátria, ao meu povo e ao meu território.

Portugal não é pequeno. Nós no mar somos do tamanho da Europa. Nós temos um território bem posicionado, nós temos a melhor geração, a geração mais bem treinada, mais bem formada. Nós não temos medo de nada nem temos que ter medo de nada. Porque o futuro de Portugal está nas nossas mãos, nas nossas cabeças e na nossa força de vontade. Portugal! Portugal! Portugal!

Muitas vezes na minha vida, quando estava debaixo da água e me sentia desanimado, ia ao painel de imersão do submarino e havia um letreiro que dizia: “Portugal honrai, porque Portugal vos contempla”. E é isso que eu acho: eu estou aqui porque vocês me contemplam, porque quero honrar Portugal, quero honrar os portugueses, quero honrar as nossas tradições e quero mudança e não estagnação. Portugal! Portugal!

Há quatro coisas que serão as minhas causas: a primeira, é o novo contrato social; a segunda, é um Estado renovado; a terceira, é um Portugal seguro; e a quarta, é uma economia para o século XXI mais performante, que distribua riqueza e não pobreza.

Novo contrato social é avançar com coesão. Nunca me passou pela cabeça fazer uma singradura com o meu navio e deixar metade da minha guarnição ou da minha tripulação para trás. Nós não podemos avançar com 20% dos portugueses ou com 15% dos portugueses ou com metade dos portugueses; nós temos que avançar com todos os portugueses. Todos, com todos, por todos!

E é isso que é Portugal. Um Portugal que foi universal e que continua a ter uma alma universal. Um Portugal que tem cerca de 3 milhões de portugueses ou lusodescendentes a viver fora de Portugal. Eles são uma grande força para nós. São pontas de lança noutras comunidades que podem ajudar a nossa economia, que podem ajudar a propagar a nossa língua, a nossa cultura e a nossa influência. Portugal é muito mais que o seu território, é uma grande identidade. Eu nasci fora do território nacional e ninguém pode dizer que eu sou menos português que qualquer português.

A coesão é nós olharmos para os nossos jovens que precisam de oportunidades; é olharmos para os nossos idosos que estão muitas vezes em situação super precária, que estão a viver no fim da sua vida sem a dignidade necessária. Isso tem que ser uma causa para todos nós. A Presidência tem que puxar por essas causas. A Presidência não governa mas pressiona, exige e garante aos portugueses uma voz. Uma voz unida, não uma voz de um partido, porque o Presidente não é uma marioneta de um partido nem está lá para fazer oposição a nenhum partido, a nenhum governo.

O Presidente está lá para garantir aos portugueses que a governação é boa, que a democracia continua e que nós vamos manter-nos em segurança quer seja interna quer seja externa.

O segundo ponto é um Estado renovado. O nosso Estado é demasiado burocrático. Nós precisamos simplificar, precisamos ser mais eficientes, precisamos ser mais eficazes. É um Estado que asfixia a economia, é um Estado que perturba muitas vezes o cidadão no seu dia-a-dia. Temos que mudar. Não há nada que nos impeça essa mudança. Somos nós que temos que decidir que temos que mudar. E, uma vez decidido, temos que fazer os passos necessários para essa mudança. Mas não é a despedir funcionários públicos. É a requalificar, é a garantir melhores condições de trabalho.

Esse Estado renovado vai também passar pela justiça. A justiça tem que ser acessível a todos os portugueses. Não é uma justiça para ricos e para pobres. A justiça tem que ser rápida porque senão não é justiça. A justiça tem que ser transparente para ser confiável pelos portugueses. E nós, todos juntos, e com os atores da própria justiça – que eu tenho a certeza absoluta que são os primeiros a querer mudar o sistema, para se credibilizarem, para serem o grande pilar da democracia portuguesa -, nós todos juntos também vamos ter que mudar e renovar o nosso Estado porque não podemos continuar assim.

Temos também problemas na segurança. Eu não vou falar da segurança externa, que toda a gente já percebeu, e eu fui o primeiro a avisar: toda a gente já percebeu que temos que olhar verdadeiramente para as relações internacionais com preocupação e com sentido de Estado mas também com sentido da sobrevivência dos nossos próprios interesses, porque no fim os nossos interesses também têm que ser defendidos.

Quero vos dizer que fico triste quando vejo o aumento da delinquência juvenil, que fico triste quando vejo violência doméstica como um dos crimes mais odiosos e que mais marca a nossa sociedade.

Portugal é um dos países mais seguros do mundo mas nós temos que preservar isso e temos que aprofundar isso. Temos que descomplicar o Estado também aí. Não podemos ter corpos policiais que se sobrepõem em funções porque isso é perder capacidade, perder força, e perder eficácia e eficiência.

Não podemos estar sujeitos a corporativismos. Nós temos que uma vez por todas ser lógicos. Para quê? Para que este Estado possa ser verdadeiramente mais eficiente. Isso é um Estado renovado. E temos que verdadeiramente olhar para o Estado e renovar o Estado porque não podemos continuar como nos últimos 20 anos a crescer a 1% quando a Europa cresce em média 1,4%. Não pode ser. Este Estado tem que ajudar a economia, este Estado tem que ajudar os portugueses. O Estado está cá para servir os portugueses e não para se servir dos portugueses.

Na segurança externa, não podemos tentar construir uma casa e ir comprar logo os materiais da casa sem ter um plano de arquitetura nem um plano de engenharia. E é isso que está a acontecer: já estamos a comprar coisas sem termos sequer definido o nosso Conceito Estratégico de Defesa Nacional atualizado nem o nosso Conceito Estratégico Militar. Temos que olhar para isto com cuidado e temos que olhar para os interesses portugueses.

E por fim queria-vos dizer: uma economia para o século XXI. Nós estamos a perder talento: estão a emigrar do nosso território os nossos jovens. Porquê? Porque a nossa economia não consegue pagar salários decentes. Nós temos que mudar. A nossa economia não se muda de um dia para o outro mas o governo tem que incentivar essa transformação através dos impostos, através de oportunidades, através de investimentos.

Essa economia tem que ser diferente: uma economia com mais valor acrescentado, com empresas com mais peso na sociedade, peso internacional também porque a economia é internacional. Nós precisamos de uma economia que pague bem aos portugueses porque senão continuamos com uma sociedade média empobrecida e com cerca de 18% da nossa sociedade em pobreza estrutural, anos e anos e gerações seguidas. Isso tem que acabar de uma vez por todas. Essa é uma causa.

E por fim quero-vos garantir uma coisa: eu não venho para criticar. Claro que tenho que ser realista e saber qual é o estado da situação, mas eu venho para construir, eu venho para ajudar a construir. E há esperança. Portugal tem esperança. Não há nada que nos possa parar. Lembro-vos que durante a pandemia fizemos um processo de vacinação que foi o melhor do mundo e não tínhamos nenhuma vantagem sobre os outros países. A única vantagem foram os portugueses unidos, com foco e com vontade de se salvarem de um grande vírus. Portugal! Portugal!

O que vos quero dizer por fim é que estão aqui reunidas pessoas de todo o país. Vocês são verdadeiramente a minha comissão de honra. Deixem-me vos dizer que apareceram… Hoje, faltou a comida no almoço porque nós planeámos mal: apareceram muito mais pessoas do que nós esperávamos. Obrigado, Portugal! Obrigado!

Nós vamos vencer e vamos vencer porque temos razão. Porque queremos unir Portugal, queremos defender Portugal e queremos que Portugal suba a colina do desenvolvimento não a passo de caracol mas à velocidade da lebre.

Força Portugal! Unidos com todos, com todos, por todos. Força, Portugal! Força! Portugal! Portugal!

Henrique Gouveia e Melo
Lisboa
4 Janeiro 2026